terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Manuel (o de Barros) - eterno gosto de infância

"Eu não obedeço ordem, obedeço à desordem"


Brincadeiras
.
"No quintal, a gente gostava de brincar com palavras
mais do que de bicicleta.
Principalmente porque ninguém possuía bicicleta.
A gente brincava de palavras descomparadas.
Tipo assim:

o céu tem três letras,

o sol tem três letras,

o inseto é maior.
O que parecia um despropósito

para nós não era despropósito.
Porque o nosso inseto tem seis letras,
e o sol só tem três,
logo o inseto é maior. (Aqui entrava a lógica?)
Meu irmão, que era estudado, falou: "Que lógica que nada, isso é um sofisma".
A gente boiou no sofisma

Ele disse que sofisma é risco n'água.
Entendemos tudo.

Depois Cipriano falou:

"Mais alto que eu, só Deus e os passarinhos".
A dúvida era saber se Deus também avoava

ou se ele está em toda parte como a mãe ensinava.

Cipriano era um indiozinho guató que aparecia no quintal, nosso amigo.

Ele obedecia à desordem.
Nisso apareceu meu avô.

Ele estava diferente e até jovial.

Contou-nos que tinha trocado o Ocaso dele por duas andorinhas.

A gente ficou admirado daquela troca.

Mas não chegamos a ver as andorinhas.

Outro dia a gente destapamos a cabeça de Cipriano.

Lá dentro só tinha árvore, árvore, árvore.
Nenhuma idéia sequer.

Falaram que ele tinha mais predominâncias vegetais do que platônicas.

Isso era"


Belezura, diz se não?

1 opiniões importantes:

Fernando Batista disse...

Uma belezura de texto moça. :)

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